“Marcar a diferença, antecipar e prevenir: tempo de crise, tempo para fazer diferente e melhor” foi o mote que orientou os trabalhos do 2º Seminário Anual de Formação da ABEI. Durante todo o dia 6 de dezembro o Auditório da Quinta dos Bacelos encheu-se de participantes e técnicos das áreas social e educativa que partilharam experiências sobre questões relacionadas com a primeira infância e com a problemática das crianças em situação de acolhimento.
Inês Martins, Diretora Técnica dos CAT da ABEI, fez uma avaliação dos três anos de trabalho nos Centros de Acolhimento Temporário (CAT) da Quinta dos Fidalgos, período em que já foram acolhidas 90 crianças e jovens. “Foram três anos muito intensos e de grande mudança. Desde que começámos, em 2008, percebemos cedo que queríamos marcar a diferença, prevenir, ser mais conscientes, e é isso que temos tentado”, referiu Inês Martins. A Diretora Técnica dos Centros de Acolhimento Temporário sublinhou ainda que a principal preocupação, a partir do momento em que cada criança é acolhida em CAT, é pensar como ela poderá sair, seja através da adoção, reintegração familiar ou outra solução.
Vera Prudêncio, Coordenadora pelos CAT dos Fidalgos, também mostrou a sua preocupação em relação ao tempo que as crianças permanecem em acolhimento: “O tempo médio em CAT tem sido de 19 meses e não os 6 que a lei preconiza”, explicou. Alguns dos problemas que se colocam na situação de acolhimento têm a ver com o fato das crianças não se vincularem a uma única pessoa, mas a várias, não terem uma figura adulta de referência, poderem ter desempenhos verbais inferiores e comportamentos mais agressivos. Por mais que o trabalho dos técnicos seja empenhado e profissional, o certo é que, quanto maior o tempo de institucionalização, maior o risco da criança comprometer o seu projeto de vida.

A primeira avaliação do trabalho destes CAT foi apresentada no seminário por Rui Norberto, sociólogo e investigador, um profissional que está a concluir, até dezembro deste ano, a avaliação final dos primeiros três anos de trabalho.
Todo o trabalho dos CAT da ABEI tem a supervisão de Luís Botas, psicólogo clínico e Supervisor de Equipas da ABEI, que explicou no seminário como o trabalho de supervisão é um imperativo para os profissionais que operam no contexto social.
Tendo em conta todo este contexto, a direção e os técnicos da ABEI têm-se empenhado em fazer melhor e diferente: em marcar a diferença. Manuel Martins, Presidente da Instituição explicou como: “Decidimos antecipar um programa de ação e um orçamento trianual (2012/2014) para que, no incerto tempo que temos pela frente, possamos reafirmar as prioridades humanas e sociais das pessoas e isso é muito importante.”
A instituição vai ainda promover a assinatura de uma “Carta de Compromisso” com um conjunto de instituições relacionadas com a sustentabilidade futura da ABEI para que esteja mais garantido o triénio 2012/2014. Como sublinhou Manuel Martins no encerramento do seminário de formação: “O futuro da ABEI começa agora de novo.”
Também presente no seminário, a Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Maria da Luz Rosinha, tornou públicas as suas preocupações com a situação socioeconómica atual: “Estamos numa situação de grande complexidade que aflige muitas famílias, por isso têm que ser encontradas soluções para essas pessoas e o trabalho das instituições reveste-se ainda de maior importância”, disse.
No caso da ABEI o trabalho de inovação traduz-se em prestar serviços cada vez melhores e mais profissionais. O perfil e a formação específica dos profissionais que trabalham nos centros de acolhimento são fatores cada vez mais valorizados. “As crianças acolhidas vêm de famílias desestruturadas, não percebem qual é o papel de cada um na família e é isso que têm que sentir e começar a compreender quando chegam a uma casa de acolhimento. Temos que ver a instituição como uma oportunidade para a criança. Nestes centros o acolhimento tem que ser transitório, reparador e terapêutico”, explicou Isabel Gomes, uma especialista nestas questões, que trabalha com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
António Carmo, Diretor do Centro Distrital da Segurança Social de Lisboa, alinhou pelas mesmas ideias e defendeu ainda que “a prevenção é a chave de todo o processo educacional e de construção do projeto de vida das crianças”.
E porque o projeto de educação de cada criança começa, precisamente, na creche e na educação pré-escolar, a ABEI tem apostado cada vez mais em projetos inovadores que promovem um desenvolvimento cognitivo equilibrado e amplo das crianças. António Rebelo, professor universitário e doutorado em psicologia explicou que “a aprendizagem é um processo dinâmico, global e não é estanque, dependendo de vários fatores de motivação”.
Neste II Seminário Anual de Formação foram dados alguns exemplos de fatores de motivação que promovem o desenvolvimento cognitivo das crianças, como as atividades ligadas à música, assunto desenvolvido pela responsável da Creche dos Bacelos, Sandra Pião e por Ana Rute Cordeiro, especialista em música para bebés. A associação dispõe do “Cantinho das Artes”, um espaço reservado a várias expressões artísticas e onde já foi comemorado o Dia Mundial da Música. A partir de janeiro de 2012 também vão existir na ABEI sessões regulares de música para bebés.
Outro exemplo de inovação do trabalho diário com as crianças é a aposta na leitura. No ano letivo 2010/2011 foi desenvolvido o projeto “E agora, outra história”, um livro infantil escrito e ilustrado pelas crianças e que teve grande sucesso. No presente ano letivo, o projeto evoluiu para um outro: “A hora do conto”. A educadora Maria Inês Grácio e Isilda Rodrigues, responsável pelo Pré-Escolar dos Bacelos explicaram que “quinzenalmente os pais são chamados a participar com os filhos em sessões de histórias, leitura e pequenas representações teatrais, que têm por objetivo motivar o gosto pelos livros e criatividade”. Tudo isto acontece no recém-criado espaço da Biblioteca dos Bacelos, que está aberto a toda a comunidade de utentes da ABEI.
A construção de “Mind maps”, explicada pelas técnicas Vânia Ferreira e Mafalda Raposo, também tem tido excelentes resultados com as crianças dos CAT da Quinta dos Fidalgos que, assim, têm exposto as suas dificuldades e problemas, conseguindo ultrapassá-los mais facilmente.
Mas este trabalho nunca estaria completo sem a intervenção dos pais. A encarregada de educação, Marta Trinca, mãe da Rita, de 3 anos, quis dar o seu testemunho no Seminário da ABEI. “Atualmente as crianças estão nas instituições desde muito cedo. Confio plenamente na ABEI, mas sempre entendi que não me devia demitir do meu papel de mãe. Por isso tento participar ao máximo nas atividades propostas, vou sempre espreitando o site, acho fundamental os pais terem acesso ao planeamento das atividades, às ementas, a tudo o que acontece com os filhos. Afinal, uma criança apenas educada na escola é uma criança por educar. Nós, pais, também somos verdadeiros especialistas!”, concluiu.
Os debates do seminário da ABEI foram moderados pelo Vereador Fernando Paulo, responsável pelo pelouro da educação na Câmara Municipal de VFX, e por Helena Simões, do Instituto da Segurança Social. O seminário também contou, além dos profissionais da instituição, com a presença de outros autarcas de Vila Franca de Xira, uma representante da Direção Regional de Educação de Lisboa e representantes de várias instituições do concelho.