A ABEI na promoção de uma alimentação saudável
17 de Março, 2014

A área da nutrição tem dado largos passos nos últimos tempos face aos novos desafios emergentes à escala global, quer pelo aumento das exigências da segurança alimentar, quer pela alteração de padrões alimentares e mudanças de estilo de vida. Infindáveis são os fatores que levam à alteração do padrão do consumo alimentar nas últimas décadas e também ao aumento do número de crianças obesas. Os fatores apontados são biológicos (caraterísticas sensoriais, neuro-químicas, preferências); fatores sócio económicos (preço dos alimentos, escolaridade, diferenças inter e intra culturais); fatores de oferta/disponibilidade dos alimentos influenciados pelo meio ambiente; fatores sociais (estrutura e influência da família), para além da política, religião/crença e a grande indústria alimentar.

Sara Duque, nutricionista da ABEI

A prevalência de pré-obesidade e obesidade tem aumentado a nível mundial a um ritmo preocupante. À obesidade associam-se sérios fatores de risco para a saúde infantojuvenil, como as doenças cardiovasculares, a hipertensão, a diabetes, alterações ortopédicas e cutâneas, perturbações do crescimento, bem como alterações do sono e psicossociais.

Em condições normais de metabolismo, os adipócitos (células que armazenam a gordura) desenvolvem-se ao longo do crescimento infantil e estão diretamente relacionados com o aparecimento de pré-obesidade e obesidade e com a sua persistência na vida adulta. Deste modo, quando há uma sobrecarga de energia pela alimentação durante estas idades, além destas células aumentarem de volume, também têm a capacidade de se dividir. Este processo de “células filhas” dos adipócitos tem lugar desde o nascimento até à adolescência. Não é, pois, de admirar que a Organização Mundial de Saúde (OMS) aponte como grupos vulneráveis no desenvolvimento da obesidade as crianças desde a idade pré-natal até às crianças pré-adolescentes.

Uma das fortes medidas de atuação é a educação alimentar e a promoção de atividade física.

Os pais e educadores adquirem um papel crucial na promoção de bons hábitos alimentares, são eles os modelos que dão a conhecer, a provar/experimentar, que podem promover a introdução de alimentos diversificados e saudáveis, proporcionando escolhas adequadas.

Se, por um lado, a maior diversidade de oferta tornou disponíveis alimentos que há décadas atrás eram impensáveis nas prateleiras do supermercado, por outro aumentou o consumo de alimentos processados, ricos em açúcar, aditivos, sal e gorduras saturadas. O consumidor é estudado ao ínfimo pormenor e o marketing, por vezes, é desleal quando erroneamente oferece produtos diet ou light, ou até denominados como específicos para crianças, com adição de outros “venenos escondidos”.  O consumidor, se não estiver informado e atento, não se dá conta que consome calorias ou aditivos sem “valor acrescentado” para a saúde, mas com eventual prejuízo para a mesma.

Em oposição, existem alguns programas do Ministério da Saúde para combater a obesidade infantil e incentivos ao consumo de fruta nas escolas. Parece haver uma preocupação crescente com a alimentação, um aumento da consciência alimentar, a informação está cada vez mais disponível, em alguns nichos de mercado, aumenta também a procura de produtos biológicos e a sua oferta, o voltar às compras tradicionais nas praças e nos mercados.

A mudança, na minha opinião, assenta em três princípios sequenciais: o aumento da informação/educação alimentar, a oportunidade de escolha e, por último, a modificação de comportamentos.

Neste sentido, a ABEI, como promotora do bem-estar da criança em todas as dimensões do seu crescimento, tem vindo a trabalhar continuamente para melhorar a qualidade dos serviços que oferece, incluindo as questões alimentares, a educação para uma alimentação saudável, para o equilíbrio nutricional e para a prevenção da obesidade infantil. Para tal, houve alterações nas ementas, aumentámos a frequência da introdução de carnes magras, de peixe, dos produtos hortícolas e de confeções mais saudáveis. O flagelo do uso excessivo do sal também foi tido em conta. Para tal foi reduzido este tempero, sendo substituído por ervas aromáticas. Foram restringidos também temperos usualmente utilizados, como o “sal escondido” (na massa de alho, massa de pimentão e outros temperos) e gorduras nocivas para a saúde, responsáveis pelo aumento do colesterol e obesidade (caldos, margarinas, etc).

Este tem sido um trabalho contínuo de diagnóstico, formação e alteração dos hábitos, dos que, na ABEI, elaboram as preparações alimentares das crianças. Atualmente as nossas cozinhas estão divididas entre os equipamentos da Quinta dos Bacelos, Quinta da Ponte, Quinta dos Fidalgos e Bairro do Paraíso. Nos Centros de Acolhimento Temporário (CAT) e na Unidade de Cuidados Continuados também existem cozinhas próprias para preparar as refeições mais adequadas a cada necessidade. Em todos os equipamentos se tem apostado na confeção no próprio local com o menor espaço de tempo possível entre a preparação das refeições e o serviço de oferta alimentar aos utentes. Tudo com o objetivo de proporcionarmos uma oferta de qualidade nutricional e segurança alimentar.

Temos o privilégio dos nossos equipamentos estarem integrados num meio rural, onde temos hortas e quintas pedagógicas onde as crianças vão à terra semear, cuidar e colher o que vão depois comer. Desta forma é mais fácil envolvê-las na origem dos alimentos, para que comecem desde logo a gostar deles.

No trabalho desenvolvido em sala com as crianças, destaco projetos como “Heróis dos Alimentos”, iniciativa dirigida aos mais pequenos, através do estudo dos grupos dos alimentos, de teatros, brincadeiras, preparações saudáveis e outras iniciativas, todas com o objetivo comum de reforçar uma educação alimentar “positiva”.

Este é um trabalho ao qual se pretende dar continuidade. A educação nutricional deve ser sequencial, coerente e com suficiente duração e intensidade para que seja interiorizada pelos mais pequenos desde cedo.

Na ABEI valorizamos a promoção da saúde nas idades em que se adquirem os hábitos e comportamentos que vão acompanhar as crianças na sua vida futura.

Damos, assim, um passo e contributo no que assumimos ser uma corresponsabilidade social, institucional e de saúde pública, numa área que está em constante mudança e adaptação. Por tudo isto se justifica o nosso enorme investimento, quer na qualidade, quer na prevenção.

Sara Duque

Nutricionista da ABEI

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